2 de fev de 2011

CONVERSA ENTRE CONTERRÂNEOS

JOSÉ RODRIGUES DA SILVA

Caxiado mostra a direção de Poço Branco Velho
Infância e adolescência

A história deste poçobranquense se confunde com a própria história do povoado e, depois, do município de Poço Branco. Nascido “no beiço do rio”, como ele mesmo se define, José Rodrigues da Silva (Zé Caxiado) é uma verdadeira enciclopédia quando o assunto é Poço Branco. Sua infância foi marcada por brincadeiras nas cachoeiras, futebol e também muito trabalho ao lado de seu pai, o Sr. Manoel Rodrigues da Silva. Caxiado afirma que, desde os primeiros anos de sua vida, acostumou-se ao trabalho diário de ajudar seu pai na mercearia - mas pouco trabalhou na agricultura. Em sua opinião, a seca e a fome foram os maiores massacres ao povo nordestino, mais até do que as pestes e epidemias que também foram comuns no passado.

Os modos de vida

Zé Caxiado agradece aos céus e afirma ter sido um privilegiado. Apesar de ter estudado pouco sempre teve uma mesa farta e acesso a regalias que a maioria das famílias da época nunca tiveram - tudo graças ao trabalho e esforço de seu pai, um homem que sempre colocou a família no centro de tudo. Teve uma criação considerada branda para os padrões antigos, mas de muito respeito ao próximo e, sobretudo, aos “mais velhos”. Ele acredita que estes conceitos lhe ajudaram bastante no curso de sua vida, afirmando que sua conduta pessoal lhe rendeu ter sido escolhido, entre outros conterrâneos, para trabalhar na Construtora Nóbrega & Machado como Técnico de Laboratório em Ensaios de Solo e, depois, como Apontador Geral (época em que comandou mais de 80 máquinas e cerca de 1.500 homens nas obras da Barragem Eng. José Batista do Rego Pereira). Foram quase dez anos de serviço.

A família

Zé Caxiado diz ter construído uma família de quatro filhos e uma quantidade de netos que, atualmente, não sabe precisar. Entre muitas alegrias, Caxiado diz que também teve decepções e que estas são, tal qual as vitórias, muito importantes para fazer o ser humano tomar o seu rumo. A família é, na visão do nosso entrevistado, o pilar maior de sustentação de um homem ou mulher: “Se ela desanda, também desandamos”, afirmou.

As realizações concretas

A maior de todas as realizações deste poçobranquense foi a sua contribuição na construção da Barragem de Poço Branco. Nos dez anos de serviço prestado, Caxiado diz ter feito muitos amigos e que, até os dias atuais, recebe o reconhecimento e abraços de alguns e de seus familiares. Caxiado diz ter participado da criação do Clube Sanelândia e do Grupo Teatral Águia, embora demonstre certo rancor por não ter recebido um reconhecimento público por estes feitos. Outro orgulho deste poçobranquense são os seus 40 anos de funcionalismo público municipal, exercendo o cargo de Fiscal Municipal de Tributos. Mas o que o deixa arrepiado foi o papel que desempenhou, como intermediador junto ao Exército Brasileiro, para a obtenção de recursos para reforma e construção de quase 80 casas - destruídas pelos abalos sísmicos ocorridos na região do Mato Grande, nos anos 80.

As saudades

Aos 70 anos de idade, Zé Caxiado diz ter saudades de sua infância, de seus pais, de sua esposa e dos amigos que “já se foram”. Acha que a saúde é o bem mais precioso de um ser humano, mas lamenta o fato da maioria das pessoas “brincarem” com algo tão sério e importante. Por isso, este poçobranquense há muito anos pratica a caminhada, atividade que vem caindo no gosto de outros cidadãos locais. Em sua fala, enfatiza que não procura alimentar a solidão e nem viver de saudades, de olho no passado, mas sim pensando em boas novas e mais realizações - para si e para os que vivem ao seu redor.

As perspectivas para Poço Branco

Zé Caxiado tem, na ponta da língua, o discurso pessimista de quase todo homem em sua idade. Acredita que, diante de tudo que se ver no dia-a-dia, na TV e no rádio é muito difícil ser um otimista. Os novos estilos de vida (internet, festas modernas, drogas, etc.) não encantam este cidadão poçobranquense que não ver, no futuro, a volta de coisas que define como boas. Ele argumenta que as escolas não funcionam bem porque professores e alunos (a maioria) perderam o interesse pelo que fazem. “As escolas se parecem com outras coisas, menos com lugares para aprender coisas do bem”. Sobre a segurança pública, Caxiado acredita que as drogas foi o que de pior aconteceu em sua cidade. “Antigamente, eram poucos os viciados e eles não mudavam muita coisa; hoje, tem em toda esquina e não sabemos mais quem usa droga e quem não usa”, afirma.

Na opinião de Zé Caxiado, Poço Branco precisa de muitas mudanças até conseguir se desenvolver e chegar a um lugar de destaque na região: “É muita coisa pra se fazer ao mesmo tempo e a prefeitura sozinha não tem como. O que mais se ver nas ruas da cidade são jovens sem emprego e outros que não querem nada”. Caxiado acredita que o turismo pode ser o futuro de Poço Branco porque pode trazer empregos para quem precisa e gerar riquezas para o município. Ele finaliza dizendo que sua cidade precisa também de mais opções de estudo e esporte para crianças e jovens e, principalmente, que algumas pessoas comecem a mudar o jeito de olhar para o lugar onde moram.

PAULO LAILSON COSME

Paulo Lailson: ainda é possível
Infância e adolescência

Paulo Lailson (Lailson de Zé Cosme) lembra de sua infância como um momento mágico, tempo de brincadeiras e de ausência de responsabilidades. Lailson lembra que nunca jogou futebol - o esporte predileto de 9 entre 10 meninos, mas que sempre gostou de música e animação. Sua adolescência foi iniciada com a experiência de oito anos como escoteiro, ao mesmo tempo em que realizava trabalhos voluntários junto a Igreja Católica e ajudava seu pai a tocar um bar (nos fins de semana).

Os modos de vida

Para este poçobranquense, a sua época trouxe à tona uma grande dificuldade na área da saúde pública: “Foi um tempo em que não existiam médicos, enfermeiros, medicamentos e até atendimento suficientes para quem mais precisava; tudo era muito difícil e distante; a sorte é que existiam pessoas como o saudoso Manoel Caju que, mesmo sem formação acadêmica, deu muita assistência as pessoas mais necessitadas”. Estudar e trabalhar sempre foram atividades que acompanharam este cidadão poçobranquense.

A família

Lailson diz ter tido uma criação rígida, dando valor as coisas conquistadas e uma família criada sem luxo e regalias (que se tem hoje). A família é, na visão de Lailson, o início de tudo e a referência para o futuro das pessoas, mas nem todos enxergam desta forma. Ele lamenta que estes valores não tenham mais aceitação no seio da maioria das famílias.

As realizações concretas

Em sua opinião, a maior de todas as suas realizações foi conquistar uma profissão que lhe desse o sustento de sua família. Lailson descreve esta trajetória como uma verdadeira “via crucis”, de muitas dificuldades e também de noites sem dormir. Ele adverte que, atualmente, praticamente nenhum jovem poçobranquense precisa passar pelo que ele viveu. Para ele, esta nova realidade deve ser aproveitada por todos e sempre com o apoio das famílias - o que é mais importante.

As saudades

Se dizendo ainda jovem, Lailson afirma que não tem muito do que sentir saudade por entender estar vivendo os melhores dias de sua vida agora. “A saudade daqueles que perdemos (como nossos pais, irmãos e amigos) é normal. Disso eu sinto saudade. Do resto, não lembro com frequência”, conclui Lailson.

As perspectivas para Poço Branco

O discurso de Lailson quanto ao futuro de sua cidade é de otimismo - “apesar dos pesares”, diz. Ele argumenta que pensa assim porque tem família (filho e esposa) e não pode querer para eles o pior. Para Lailson, tudo de mal que se ver em Poço Branco, atualmente, é um reflexo do que acontece no mundo. Não é responsabilidade de prefeito, vereador, juiz, polícia, professor, padre ou pastor... Os novos estilos de vida (internet, festas modernas, drogas, etc.) assustam este cidadão poçobranquense, mas ele acredita que a solução está dentro da casa de cada um de nós. “Caso as pessoas se conscientizassem de alguns comportamentos e atitudes básicas, muitas coisas podem mudar. Mas a mesquinharia, a inveja e outros pensamentos maléficos ainda atrasam qualquer coisa - inclusive uma cidade”, define.

Lailson acha que todas as escolas de Poço Branco já melhoraram muito nos últimos anos. No entanto, nosso entrevistado se considera leigo quando o assunto em discussão é Educação. Já sobre a segurança pública, Lailson acredita que as drogas foram a maior responsável por tanta violência em sua cidade. Por trabalhar na área da saúde, ele acredita que Poço Branco já sente as consequências da existência de viciados, mas ainda não percebeu o custo com o tratamento destes que, segundo ele, é muito alto e não tem eficácia garantida. Para Lailson, “quem desrespeita as leis deveria ficar preso; mas como não existem cadeias suficientes, a maioria dos criminosos voltará às ruas para assaltar, matar, sequestrar, aterrorizar, etc. É uma bola de neve...”.

Assim como na segurança, será preciso uma mudança de atitude “de cima pra baixo” para se melhorar o atendimento na área de saúde pública - em qualquer cidade brasileira. “Não existe fiscalização de quase nada nesta área; tudo é muito caro e os recursos sempre parecem cada vez mais insuficientes”, destaca o enfermeiro Lailson. Ele exemplifica dizendo que, numa cidade com 10 mil habitantes, por exemplo, não há como um hospital se preparar, em todos os sentidos, para atender a todas as 10 mil pessoas num só mês. Sempre se faz uma estimativa que, muitas vezes, é feita “por baixo“, para diminuir custos. Assim, é lógico que as coisas (atendimento, remédios, combustível, etc.) devam faltar em algum momento.

A tarefa de desenvolver uma cidade como Poço Branco é, para Lailson, uma tarefa muito complicada. Ela envolve muitas mudanças e precisará de muitos anos para ser concretizada. Lailson acha que o turismo na barragem pode ser uma boa opção para dar início ao crescimento da cidade, mas acrescenta que já faz muito tempo que se fala nessa possibilidade e nunca foi feito nada. Ele acha que Poço Branco somente sentirá mudanças positivas se todo prefeito der continuidade ao projeto de crescimento iniciando anteriormente. Infelizmente, segundo argumenta nosso entrevistado, esta possibilidade é remota e o município continuará a crescer na mesma medida em que crescem seus vizinhos, ou seja, “a passo de tartaruga”.

MIGUEL JANUÁRIO

Miguel Januário: um legítimo poçobranquense
Infância e adolescência

Aos 88 anos de idade, Miguel Januário e sua esposa, Da. Maria das Neves (83), descrevem suas infâncias como momentos de extremo sofrimento, fome, muito trabalho pesado e pouquíssimas oportunidades de lazer e entretenimento. A história deste poçobranquense começa quando sua família, composta por nove membros, mudou-se de Pedro Avelino em busca de um lugar em que fosse possível, pelo menos, ter água para beber. Foram vinte dias de viagem do alto sertão potiguar até o povoado da Marelona, distrito de Taipu. Desde os sete anos de idade Miguel Januário iniciou sua vida de trabalhador rural, tendo a seca e a fome como maiores opositores.

Os modos de vida

Miguel Januário afirma que, no início dos anos 30, os povoados daquela região tinham apenas quatro principais famílias: Tabocas, Gonçalos, Caxiados e Miguéis. Destas, era tirada toda a vida social e econômica da região - formada, basicamente, pela agricultura de subsistência. Além do trabalho nos roçados, Miguel afirma que o povo de Poço Branco Velho era muito religioso e respeitava as datas e os ensinamentos da Bíblia Sagrada - mesmo que poucos soubessem ler e/ou escrever. Apenas aos 38 anos de idade Miguel Januário começou a exercer um trabalho que o tornaria mais conhecido no município: vendeu picado e cachaça por mais de 45 anos em Poço Branco (desde o povoado até a cidade emancipada).

A família

Miguel Januário constituiu uma família de três filhos, criados sob os preceitos da fé do respeito. Ele lembra que, hoje, não existe mais respeito entre pais e filhos e diz: “Filho não toma mais a benção a pai, a mãe, a um tio(a), a um padrinho(a). Não existe mais respeito nas famílias e muitos estão longe de Deus. Mas a minha família eu ainda consegui criar com respeito”. Miguel só lamenta o fato de todos seus filhos terem seguido caminhos que se distanciaram dele. “Hoje vivo sozinho, doente e esquecido pelos amigos e parentes. Só tenho a minha véia pra me ajudar. Criei uma neta e esperava que ela morasse, pelo menos, perto de nós. Mas ela também seguiu para um caminho distante. A gente só é alguma coisa quando é novo e tem saúde”, resume Miguel sobre a sua família.

As realizações concretas

Miguel Januário diz ter vivido sempre do seu trabalho, de forma honesta, tendo o que comer e uma casa própria pra morar. Para ele, não é preciso muito mais do que isso para ser feliz. Ele afirma que não tem nenhuma grande realização, a não ser ainda estar vivo e receber uma aposentadoria todo mês. “O trabalho no roçado era muito pesado e não me deu riqueza. Mesmo assim, não aceitei um convite de um ex-prefeito, para trabalhar na Escola José Francisco, porque achava que a agricultura era mais vantajosa. Se tivesse ido, hoje eu receberia uma aposentadoria melhor“, destaca Miguel.

As saudades

Miguel Januário diz ter saudades de seus pais, de seus filhos distantes e dos amigos que “já se foram”. Ele também sente saudades dos tempos em que podia beber, dançar e ir ao Juazeiro do Norte - visitar o Pe. Cícero. Hoje, a saudade não adianta muito para este poçobranquense que se diz triste pelas muitas promessas que recebeu de políticos locais que nunca foram cumpridas e afirmou que: “Recebi, quando eu mais precisava, o auxílio de um político daqui que eu nunca pensei que fosse me ajudar. Não posso ficar contra uma pessoa dessa porque, abaixo de Deus, foi quem me socorreu. Devo muito a ele”.

As perspectivas para Poço Branco

Miguel Januário, um cidadão de 88 anos de idade, não acredita mais em melhores dias para Poço Branco. Diz que não tem quem der jeito porque são as pessoas é que não querem mudar. Miguel elege a bebida e as drogas como os agentes causadores de mais sofrimentos nas famílias de Poço Branco. Os novos estilos de vida (internet, festas modernas, drogas, etc.) nem são conhecidos totalmente por este cidadão poçobranquense que não ver, no futuro, a volta de coisas que define como boas.

Ele argumenta que as escolas não funcionam bem porque alunos não respeitam mais os professores. Sobre a segurança pública, Miguel Januário acredita que o medo é uma constante na vida dos poçobranquenses. Ele relembra o dia em que teve a porta de sua casa arrombada por um menor, em busca de dinheiro para drogas, e que este nunca recebeu nenhuma punição pelo que fez. Na opinião de Miguel, Poço Branco precisa de um milagre para conseguir se desenvolver. Ele acha que a única coisa que a Barragem de Poço Branco pode fazer pela cidade é dar peixe e camarão aos pescadores, como sempre fez. “Aqui, turismo não dar certo”, finaliza Miguel Januário.

6 comentários:

thomas Jefferson disse...

achei o maior "barato" fazer esse tipo de materia com os filhos de poço Branco. estar de parabéns.. gostei muito do que falou me nobre amigo Lainson.. Tem suas opiniões Bem formadas. parabéns Daniel Otimo Trabalho

Arnaldo disse...

fenomenal, magnifico esse blog parabens ..

erimar do serrote disse...

foi pior 1dia +hje mto mudou e p melhor em pb. mas os politic contin pensand em desenv suas ctas bancaria, viajr, and de carro e luxar. so isso. ja tao eleito e nau prec +do povo e quem t fora ta doid p mamar tb. ta dific acrdit num home honets na minh terra.

Anônimo disse...

TO C MIGUE JANUARIO NAO TEN GEITO P POCO BRANCO MAS NAU.

Sergio disse...

comcordo com erimar do serote e acho qui poço branco pricisa de gente nova gente limpo e sem pilatrageins. se nao ta bom como ta entao por que querer dar poço branco a esses goes de novo ? nao dar naum..

céliopetrovich disse...

Daniel!
Gostaria de sugerir alguns nomes que fizeram ou faz a história de Poço Branco:
Manoel Irineu da Silva(Manoel Moça), Maria do Carmo da Silva, Zé de Freitas, Sebastiana Rocha,Sebastião Miguel,Dona Lourdes(Esposa de Sebastião), Chico Neto.
Saúde, Célio.